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Parque e Palácio Nacional da Pena

Por Miguel Manso

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05.12.15 Por Alexandra Prado Coelho

A Pena é, diz o seu director, “a primeira grande evocação da História portuguesa”. É verdade que é outro palácio, o da Vila, no centro de Sintra, que carrega um peso secular que começa com a presença muçulmana e atravessa toda a monarquia portuguesa. “A História está na vila”, reconhece Nunes Pereira, “mas a evocação dessa mesma História está lá em cima, na Pena”, nesse excêntrico palácio de mil formas e cores que se ergue, majestoso, no topo dos penhascos.


D. Fernando II nasce em Viena como Saxe-Coburgo-Gota-Koháry e torna-se rei de Portugal pelo seu casamento com D. Maria II. “É um rapaz alto e louro que chega ao nosso país com 19 anos e tem uma grande necessidade de se afirmar como legítimo rei de Portugal, mesmo que consorte. Por isso, o que faz é agarrar-se à figura de D. Manuel I, para, com a Pena, mostrar ao mundo que está à altura da herança da nação portuguesa.”

Em 1838 compra o mosteiro de São Jerónimo, doado a esta Ordem por D. Manuel I e devoluto após a extinção das ordens religiosas, e nos anos seguintes começa a sua recuperação, assim como a construção do Palácio Novo. Não há dúvida, prossegue o director, que “é uma herança germânica que o leva a construir a Pena a partir dessa ideia de um palácio no topo da montanha, rodeado por uma paisagem”.

Mas o que marca a diferença em relação a palácios como o de Neuschwanstein, mandado construir pelo primo de D. Fernando, Luís II da Baviera (e cuja construção data de 1869, sendo, portanto, posterior ao da Pena), é a ligação ao passado de Portugal. “Enquanto nos seus palácios os germânicos evocam os estilos gótico e românico, D. Fernando vai evocar outras paisagens e regiões culturais, como a arquitectura mourisca, a indiana e a manuelina”, afirma Nunes Pereira. “O espírito e o conceito é o mesmo, mas o resultado é outro porque os lugares onde se erguem e as nações que evocam são diferentes.”

Há uma dificuldade para quem tenta contar a história do palácio aos visitantes que é a da existência de dois tempos diferentes: o primeiro durante a vida de D. Fernando II e D. Maria II, que ali habitaram, e o segundo já com o rei D. Carlos I e a sua mulher, a rainha D. Amélia, que tiveram também uma profunda ligação à Pena.

Por isso, quando percorremos as salas e, sobretudo os espaços privados, vamos recebendo informação que nos permite perceber a utilização em cada uma dessas duas fases. Um exemplo é o quarto de D. Amélia, que foi, anteriormente, o quarto de D. Fernando e que mantém elementos das duas décadas.

Depois das obras de recuperação, grande parte do trabalho que está actualmente a ser feito prende-se com o estudo do mobiliário. “É um trabalho que está no início. Sabemos que o mobiliário de D. Fernando foi feito pela casa Barbosa e Costa, temos os recibos, as datas, mas quem o desenhou, de onde vieram os modelos, que influências teve, isso não sabemos.”

E este é um aspecto muito importante, porque dessa reflexão sobre a identidade nacional feita por D. Fernando faz parte também “a recuperação das artes decorativas, a azulejaria, o trabalho de pedra”, um “recolher do passado ideias para uma produção artística do presente” — algo que, frisa Nunes Pereira, “é extremamente actual”.

Igualmente fundamental é entender a relação do palácio com o parque em que está inserido. Durante muito tempo essa tarefa era bastante mais difícil, pois a gestão do palácio e do parque estava nas mãos de duas entidades distintas. O facto de a Parques de Sintra ser agora a responsável por ambos permitiu uma recuperação conjunta e uma visita integrada.

“Quando o rei chega a Portugal fica deslumbrado com o potencial de criação de um parque romântico em Sintra”, explica Nuno Oliveira, director técnico para o património natural. “Vê a ruína do antigo mosteiro da Ordem de São Jerónimo, que está no topo da montanha, e a que chamam o ninho das águias. As ruínas eram um dos elementos decorativos dos parques românticos, tal como os rochedos e penedos que aqui existiam. A base está toda lá, é uma paisagem com um grande potencial romântico.”

Assim, para áreas que até então eram sobretudo de pastagem e muito pobres, D. Fernando traz plantas vindas dos pontos mais exóticos do mundo, “desde uma floresta nórdica de coníferas até ambientes mais ligados à Austrália e à Nova Zelândia, passando por espécies americanas, camélias, azáleas e rododrendos”. E, graças ao microclima de Sintra, estas adaptam-se bem aqui.

Hoje o cultivo das camélias está a ser recuperado. “Existem mais de duas mil árvores cameleiras, já temos cerca de 300 cultivares identificadas e estamos a reproduzir as históricas, dedicadas a membros da família real, para vir, no futuro, a vendê-las ao público”, revela Nuno Oliveira.

Nos 85 hectares da Pena há muito a visitar. Um dos mais recentes pontos de interesse é o recuperado Chalet da Condessa D’Edla, a segunda mulher de D. Fernando II (D. Maria II morreu aos 34 anos ao dar à luz o 11.º filho). “A Pena não pode ser compreendida na sua totalidade sem o chalet”, defende António Nunes Pereira. “Pertence a uma fase em que D. Fernando é já viúvo, conhece uma cantora de ópera e decide casar com ela. O chalet é também uma expressão do romantismo, mas aqui de um homem para a sua mulher, que era suíça. É o privado e a memória individual oposto à memória colectiva representada na Pena.”

Praticamente destruído por um incêndio em 1999, o chalet tinha ficado quase inacessível. “O parque estava num estado de degradação imenso”, recorda Nuno Oliveira. “O palácio dava receitas mas o parque não, por isso estava abandonado, com os seus elementos, o o chalet, a abegoaria, as estufas, literalmente perdidos. Era difícil chegar até eles e depois descobrir o caminho de volta.”

A recuperação do chalet “foi o ponto de partida para a do parque, que se fez como uma mancha de óleo”. Neste momento, as estufas acabam de ser inauguradas e falta apenas recuperar o Alto do Chá e o Jardim Inglês.



Última actualização a 05-12-2015
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