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Portugueses, romanos e um pelourinho amaldiçoado

Por Paulo Ricca

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16.11.10

A tradição diz que Pedrógão Pequeno foi fundada pelo cônsul romano Aulo Curcio, em 150 a.C. Os historiadores duvidam desta certeza do povo e nós preferimos não tomar partido. O que nos interessa é descobrir esta vila histórica, perdida na região da Beira Interior e pertencente ao concelho da Sertã.


É longa a antiguidade da vila (que chegou a ser sede de concelho entre 1513 e 1834), e talvez por isso a nossa viagem deva começar pelos inúmeros vestígios históricos que saltam à vista por toda a localidade. Nada melhor do que uma subida até ao Monte da Senhora da Confiança, um miradouro natural de rara beleza, de onde é possível observar os extensos montes e vales que nos separam da serra da Estrela - num dia de céu limpo, conseguimos avistar o ponto mais alto de Portugal continental, apesar de estarmos a mais de 100 quilómetros.

Mas não foi só a vista que nos trouxe a este monte. Os restos de um antigo castro pré-lusitano são ainda visíveis em toda a sua extensão, fazendo-nos recuar para um tempo em que nem os romanos sonhavam um dia chegar a estas paragens. A igreja de Nossa Senhora da Confiança (onde, no mês de Setembro, tem lugar uma das mais importantes romarias do concelho da Sertã) merece igualmente uma visita, que não deve terminar sem um relance pelas variadas espécies arbóreas que a rodeiam.

Já que falámos em romanos, talvez seja boa ideia irmos ao encontro daquilo que resta de uma estrada romana, situada junto ao cemitério da vila. Os arqueólogos não têm dúvidas de que esta estrada era parte integrante da via que ligava Mérida a Conímbriga.

De regresso à vila, é preciso determo-nos por alguns momentos junto do pelourinho. Não que o seu valor patrimonial seja de grande relevo, mas porque a sua história de vida merecia um livro. Para que o leitor não fique com água na boca, aqui vai uma versão condensada: tudo começa em 1455, altura em que D. Afonso V eleva Pedrógão Pequeno à categoria de vila, com direito a pelourinho, forca e juiz próprio. O pelourinho é construído, mas as gentes da Sertã (vila vizinha e sede de concelho a que pertencia Pedrógão) discordam do direito de a localidade ter um pelourinho e encarregam um grupo de cidadãos da "nobre" tarefa de se deslocarem a Pedrógão para o destruir. O povo de Pedrógão revolta-se com o acto e resolve vingar-se. Como? Construindo um novo pelourinho. As gentes da Sertã não desistem e nova comissão segue até ao local para derrubar tão polémico monumento. Os pedroguenses, por sua vez, recusam baixar os braços e reconstroem o pelourinho, desta vez, porém, dando conta do sucedido ao rei D. Manuel I, que viria a sanar os ânimos e a restabelecer a paz entre os dois povos.

Mas a história não termina aqui. Com o passar dos anos, o pelourinho deixou de ter uso e iniciou-se a sua lenta degradação. Numa tarde de 1882, uma companhia de saltimbancos, no decorrer da sua actuação, destruiu parte do pelourinho, sendo o restante demolido mais tarde. O episódio final desta história chegaria em 1937, quando uma comissão colocou mãos à obra e reconstruiu o pelourinho num outro local (não fosse o diabo tecê-las).

Mas as histórias da vila não se esgotam aqui. O centro histórico (alvo de uma recente intervenção ao abrigo do programa Aldeias de Xisto) merece uma visita atenta, tantos são os tesouros que se escondem a cada canto e recanto. As casas apalaçadas dão um toque de solenidade a todo este quadro e fazem-nos recordar o tempo em que Pedrógão Pequeno era o torrão natal de várias famílias ilustres, com fortunas construídas um pouco por todo o mundo. Pena é que essas mesmas casas agonizem hoje, esperando que alguém as ampare e traga de novo à vida. Ainda assim, não deixam de merecer um olhar mais demorado.

De atenção se faz também a visita à igreja matriz, um templo de estilo manuelino devotado a São João Baptista, do qual não se conhece a data de fundação.

Ponte armadilhada

Como o tempo urge e há ainda muito para contar, é preciso sair do centro histórico e mergulhar nesse lugar telúrico, separado pelo rio Zêzere, que é o vale do Cabril. Uma descida vertiginosa, amparada por muros de pedra e forrada a calçada, conduz-nos garganta abaixo por um local que tem servido de inspiração a muitos artistas, nomeadamente Alfredo Keil, José Malhoa e até Luís Vaz de Camões.

No caso de Alfredo Keil, que ficou imortalizado pela composição do hino nacional, diz quem sabe que o compositor, poeta e pintor se apaixonou por este vale quando aqui veio, pela primeira vez, em meados do século XIX. A paixão foi tão forte que o local serviu de inspiração para alguns dos seus quadros e poemas da série Tojos e Rosmaninhos. Também há quem jure que foi por estas paragens que Alfredo Keil compôs A Portuguesa, mas disso não há certezas, até porque há outras localidades que reclamam para si essa honra.

O pintor José Malhoa, que morava aqui bem perto, na vila de Figueiró dos Vinhos, era outro dos assíduos frequentadores deste vale, buscando inspiração para alguns dos seus quadros, por entre o manto de silêncio conciliador que o Cabril oferece, apenas entrecortado pelas quedas de água que se acotovelam nos enormes penhascos do vale.

Todavia, o mais ilustre dos visitantes do local terá sido Luís Vaz de Camões. Corria o ano de 1548 quando Camões, desterrado da Corte e errante pelo Ribatejo, terá feito uma 'excursão' até Pedrógão Grande (a vila que se avista do outro lado do vale), tendo recolhido ao Convento Dominicano de Nossa Senhora da Luz. Diz-se que por ali esteve para recuperar de amores e que era grande admirador da zona do Cabril, onde se perdia em grandes passeios. É fácil perceber porquê.

No fundo deste vale, é possível encontrar a chamada ponte filipina, construída entre os anos de 1607 e 1610, e que durante muitos anos foi o único meio de ligação entre as vilas de Pedrógão Pequeno e Pedrógão Grande. Também aqui não faltam histórias, e a mais fantástica de todas será talvez aquela que diz que a ponte está armadilhada, tendo um barril de pólvora preso a um dos seus pilares. A população conta que foi lá colocado aquando das invasões francesas e que ainda hoje aí permanece. Se é verdade ou não, é difícil dizer, mas talvez algum viajante mais intrépido nos possa trazer a resposta. Pode ser também que tenha a sorte de vislumbrar a ponte romana, situada aqui ao lado e que se encontra submersa pelas águas da albufeira da barragem da Bouçã.

Antes de nos despedirmos, é preciso ir até ao moinho das freiras, captar os instantes finais desta viagem ao coração do país. O caminho desde a ponte filipina não é difícil, bastando atravessar um túnel e andar mais uns metros. É um óptimo local para um reencontro com a natureza no seu estado mais puro.

Como ir

Para quem vem de Lisboa, seguir pela A1 até à saída 7 (A23 - Abrantes/Torres Novas). Depois seguir pela A23 até à saída 10 (Vila de Rei). Tomar a N2 até à Sertã, onde é preciso entrar no IC8 (direcção Figueira da Foz). A saída para Pedrógão Pequeno está a apenas dez quilómetros de distância. Para quem vem do Porto, apanhar a A1 até Pombal, seguindo depois pelo IC8 até à saída para Pedrógão Pequeno.

Onde comer e dormir

Hotel da Montanha
Monte da Senhora da Confiança, Pedrógão Pequeno
Tel: 236480000

Rainha do Zêzere
Rua Eduardo Conceição e Silva, Pedrógão Pequeno
Tel: 236487494

Restaurante Lago Verde
Vale de Góis, Pedrógão Grande
Tel: 236486240

Rui Pedro Lopes (Novembro 2010)

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